2as Sem Carne

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Dia da Terra - Sustentabilidade Precisa-se! (2)

Dia da Terra, sustentabilidade precisa-se!

Dia da Terra: Menos carne, mais alimentos biológicos e andar a pé pelo desenvolvimento sustentável

A associação ambientalista Quercus lembra que todos podem fazer a diferença na promoção de um desenvolvimento sustentável e aconselha as pessoas a reduzir o consumo de carne, preferir os alimentos biológicos ou poupar água, entre outros.
Em comunicado, a Quercus sublinha que, passados mais de quarenta anos sobre a criação da data que assinala internacionalmente o Dia da Terra, «o caminho percorrido não tem ido no bom sentido» e não se têm feito progressos na capacidade de conhecer e respeitar os limites de sustentabilidade do planeta.
«Em Portugal, muitos dos projetos desenvolvidos nos últimos anos são insustentáveis tanto do ponto de vista financeiro como, sobretudo, do ambiental: entre inúmeros maus exemplos, avultam a construção de estradas atravessando áreas ecológicas sensíveis e que estimula o uso do automóvel com a consequente poluição», diz a organização.

Diário Digital / Lusa

Discurso no lançamento das 2.ªs sem Carne

 

As mais cordiais saudações, em meu nome e da Direcção Nacional do PAN, a todos os presentes, em particular à gerência do Jardim dos Sentidos, por se ter disponibilizado para esta iniciativa, às figuras públicas e amigas que nos apoiam e aos membros dos órgãos de Comunicação Social

 

No lançamento em Portugal das 2.ªs sem Carne, um movimento mundial que surge entre nós por iniciativa do PAN, gostaria de recordar a visão ampla da história do universo, do planeta e do homem que nos é hoje oferecida pela astronomia e pela geofísica. Estas ciências dizem-nos que o universo observável tem 15 mil milhões de anos, a nossa galáxia 8 mil milhões de anos e o planeta Terra 4,5 mil milhões de anos. Os primeiros traços de vida apareceram nele há 3,8 mil milhões de anos, enquanto as primeiras manifestações da técnica dos hominídeos datam apenas de há alguns milhões de anos e o homo sapiens apareceu somente há 200 000 anos. Os fundamentos da actual era industrial surgiram apenas há dois séculos. Como conclui André Lebeau, retomando Carl Sagan: “Se se reconduz a idade do Universo a um dia de vinte e quatro horas, a presença do homem manifesta-se nos cinco últimos segundos e a explosão técnica e demográfica ocupa o último centésimo de segundo. Isto não dá de modo algum à civilização humana os atributos da perenidade […]”  .

Todavia o homem comporta-se como um recém-chegado à festa da vida que de repente imagina que a festa foi organizada para si, que aí vai ficar para sempre e que tem o direito de fazer o que quiser da casa, dos seus recursos e dos outros convidados, pondo-os ao seu serviço, explorando-os e destruindo-os a seu bel-prazer, pois eles durarão, tal como ele próprio, ilimitadamente... E é o que continua a fazer, mesmo após saber que esses recursos são limitados e estão a esgotar-se rapidamente, mesmo constatando o sofrimento que isso causa aos outros convidados e que esse modo de agir é auto-destruidor… Podemos imaginar o que faríamos com alguém que chegasse a nossa casa e pensasse e se comportasse assim… E todavia quem pensa e se comporta assim somos nós, todos nós, activa ou passivamente, directa ou indirectamente cúmplices ao não ver ou não querer ver as consequências que este paradigma de pensamento e comportamento está a ter sobre o planeta, os seres vivos e, naturalmente, nós próprios.

Vivemos com efeito uma profunda crise do paradigma que dominou a humanidade europeia-ocidental e se mundializou nos últimos dois séculos, o qual rapidamente tomou conta das nossas vidas, mas ainda mais vertiginosamente mostra hoje os seus efeitos catastróficos: o paradigma onde o homem se considera centro e dono do mundo, reduzindo a natureza, os seres vivos e sencientes a objectos desprovidos de valor intrínseco, meros meios destinados a servir fins e interesses humanos. Se a ciência e a tecnologia modernas confiaram no progresso geral e ilimitado da humanidade mediante a exploração ilimitada dos recursos considerados ilimitados do mundo natural e dos seres vivos, frustra-se hoje essa expectativa de um Paraíso terreno científico-tecnológico-económico, o sucedâneo laico da aspiração messiânica ao Reino de Deus sobre a terra: o sonho dos projectos liberais e socialistas, a fantasia das direitas e das esquerdas, o ideal do capitalismo privado e de estado, converteu-se no pesadelo da guerra e da fome, dos desníveis crescentes entre pobres e ricos, da crise económico-financeira, da destruição da biodiversidade, do sofrimento humano e animal, da iminência de colapso ecológico e da incapacidade da sociedade de produção e consumo satisfazer o desejo humano de felicidade. Os relatórios científicos mostram o tremendo impacto que o actual modelo de crescimento económico tem sobre a biosfera planetária, acelerando a sexta extinção em massa do Holoceno, com uma redução drástica da biodiversidade, sobretudo nos últimos 50 anos, a um ritmo que chega a 140 000 espécies de plantas e animais por ano, mais de 383 por dia, devido a causas humanas: destruição de florestas e outros habitats, caça e pesca, introdução de espécies não-nativas, poluição e alterações climáticas, etc.   .

Uma forma de antropocentrismo particularmente violenta é o especismo, preconceito pelo qual o homem discrimina os membros de outras espécies animais por serem diferentes, mediante um critério baseado no tipo de inteligência que possuem que ignora a sua comum capacidade de sentirem dor e prazer físicos e psicológicos (a senciência, ou seja, a sensibilidade e o sentimento conscientes de si, distinto da sensitividade das plantas) (Peter Singer), o serem sujeitos-de-uma-vida (Tom Regan) ou o serem “pessoas”, pelo simples facto de terem senciência, não estando interessados em ser usados como propriedade humana (Gary Francione)  . A exploração ilimitada de recursos naturais finitos e dos animais não-humanos para fins alimentares, (pseudo-)científicos, de trabalho, vestuário e divertimento, tem causado um grande desequilíbrio ecológico e um enorme sofrimento. O especismo surge afim a todas as formas de discriminação e opressão do homem pelo homem, como o sexismo, o racismo e o esclavagismo, embora sem o reconhecimento e combate de que estas têm sido alvo.

A desconsideração ética do mundo natural e da vida animal não só obsta à evolução moral da humanidade como também a lesa, lesando o planeta, como é particularmente evidente nos efeitos do consumo de carne industrial:

1 – O indescritível sofrimento dos animais nas unidades de pecuária intensiva, autênticos campos de concentração e tortura física e psicológica, onde são engordados à pressa uns em cima dos outros, fora dos seus habitats naturais, com luz artificial, quase sem se poder mexer, a morder-se e devorar-se loucos de stress, até chegar a angústia do abate (como escreveu Theodor Adorno: “Auschwitz começa sempre que alguém olha para um matadouro e pensa: são apenas animais”). E tudo apenas para que os produtores possam ter o maior lucro possível no menor tempo possível;

2 – A carne dos animais criados nessas condições, autênticos bebés com corpo de adultos, que crescem em semanas o que levaria meses, chega aos nossos pratos cheia de toxinas, antibióticos e hormonas de crescimento que nos envenenam, num autêntico atentado legal e organizado à saúde pública (segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 75% das doenças mais mortais nos países industrializados advêm do consumo de carne). Se aparentemente a carne é muito barata, tem todavia um enorme custo oculto e não contabilizado em termos de doenças, despesas médico-farmacêuticas e diminuição do tempo e da qualidade de vida.

3 - Investir na produção industrial de carne (e peixe) é uma gigantesca fonte de lucro para alguns, mas um péssimo negócio para a humanidade, que tem um terrível impacto ecológico e contribui para a escassez de alimentos no mundo. Todos os cereais e leguminosas produzidos em todo o planeta para alimentar animais para consumo humano poderiam, com medidas geopolíticas adequadas, nutrir directamente 2 000 milhões de pessoas, quase um terço da população mundial e o dobro dos quase 1 000 milhões que padecem de fome actualmente. Além disso, a produção de 1 kg de carne de vaca liberta mais gases com efeito de estufa do que conduzir um carro e deixar todas as luzes de casa ligadas durante 3 dias, consome 13-15 kg de cereais/leguminosas e 15 000 litros de água potável, o bem cuja crescente escassez já causa 1.6 milhões de mortes por ano e novos conflitos bélicos (http://www.ambienteonline.pt/noticias/detalhes.php?id=7788). A pecuária intensiva é responsável por 18% da emissão de gases com efeito de estufa a nível mundial, como o metano, emitido pelo gado bovino, que contribui para o aquecimento global 23 vezes mais do que o dióxido de carbono; 70% do solo arável mundial destina-se a alimentar gado e 70% da desflorestação da selva amazónica deve-se à criação de pastagens e cultivo de soja para o alimentar (cf. um relatório de 2006 da FAO, Food and Agriculture Organization, da ONU, Livestock’s Long Shadow: environmental issues and options: http://www.fao.org/docrep/010/a0701e/a0701e00.HTM).

Tudo isto tem levado a ONU a considerar urgente uma dieta sem carne nem lacticínios como a única que permitirá alimentar de forma sustentável uma população mundial que deve atingir os 9.1 biliões em 2050  .

 

            Por todos estes motivos, onde se constata a unidade das nossas três grandes causas – humanitária, animal e ecológica - , o PAN assume esta como uma das mais importantes campanhas de sensibilização e debate públicos que vai promover. Sem pretendermos que toda a população se torne vegetariana ou vegana, a abstenção de carne uma vez por semana permitirá reduzir em 15% todos os efeitos negativos enunciados e será para muitas pessoas o primeiro passo para descobrirem alternativas alimentares mais éticas, saudáveis e sustentáveis, o primeiro passo para regressarmos a níveis de consumo de carne mais próximos da geração dos nossos avós, antes da população ceder ao engano da carne barata e ao mito absurdo de que consumir mais carne é sinónimo de melhor vida e maior estatuto social.

            A nossa contribuição para a preservação do planeta e para um mundo melhor e mais saudável para todos, humanos e não-humanos, passa hoje pelo que pomos no prato. As nossas opções alimentares são uma questão ética e civilizacional e o PAN exorta as instituições públicas, as associações cívicas, as forças políticas e a população em geral a que se informem sobre esta temática e abram a este debate. A política e os políticos do presente e do futuro não podem continuar a ignorar estas questões cruciais, pois nelas se joga o destino da civilização.

            Necessitamos urgentemente de uma nova política, que não esteja ao serviço dos mercados e dos grupos económico-financeiros e se baseie na sabedoria, na ciência e nos valores éticos fundamentais, onde o amor e a compaixão por todos os seres vivos seja central, pois somos todos interdependentes. Disso depende o futuro deste planeta, da humanidade e dos animais não-humanos. Disso depende o bem de tudo e de todos.

            Reduzir o consumo de carne é reduzir o sofrimento de homens e animais e contribuir para a preservação do planeta. Reduzir o consumo de carne é promover em todo o mundo a cultura da paz e da não-violência a que no fundo todos aspiramos. Reduzir o consumo de carne é contribuir para um mundo novo, a nossa maior tarefa e a nossa mais elevada missão.

 

 

Paulo Borges

Presidente da Direcção Nacional do PAN

31.10.2011

 

Comemora-se hoje, 16 de Outubro, o Dia Mundial da Alimentação.

Um excelente dia para lembrarmos aqueles que comem de forma pouco saudável, os que não têm nada para comer e os que são comidos.

Os hábitos alimentares dos países industrializados, baseados em muitos casos num consumo excessivo de carne, têm um enorme impacto na saúde, no ambiente e no bem-estar de biliões de animais que são criados de forma intensiva numa indústria que não olha a meios para atingir o lucro.

Sabemos hoje, com base em dados fornecidos por muitas organizações e organismos internacionais, como a American Dietetic Association, que o consumo excessivo de carne leva a uma maior probabilidade de desenvolver obesidade, doenças coronárias, hipertensão, diabetes e alguns tipos de cancro, por oposição a uma dieta sem carne. Se outra razão não for suficiente para nos levar a repensar os nossos hábitos alimentares, que seja pela nossa saúde.

Por outro lado, há 800 milhões de pessoas no mundo a passarem fome ou com problemas de nutrição. Se os cereais que são usados na pecuária intensiva para alimentar o gado fossem directamente usados para alimentar estas pessoas, não haveria escassez de alimentos, um problema que tende a agravar-se à medida a que aumenta a população mundial. E num mundo onde cada vez mais se manifestam problemas de seca, fará sentido que 23% de toda a água usada na agricultura seja usada nas criações intensivas de gado?

Gado esse que, juntamente com porcos, galinhas e outras espécies, num total de 60 biliões de animais por ano, são sujeitos a crueldades inimagináveis, mantidos em espaços onde muitas vezes nem sequer se conseguem virar sobre si próprios, engravidados à força, retirados de imediato das suas mães, castrados a frio à nascença, alimentados com proteínas para engordarem em dias o que seria normal em meses, medicados com antibióticos que acabam por entrar na nossa cadeia alimentar e muitas vezes mal-tratados e abatidos de forma cruel.

 

Na verdade, o que haverá para comemorar neste dia?

O PAN propõe que se comemore hoje o dia em que todos repensamos os nossos hábitos alimentares. Que seja hoje o dia em que tomamos consciência daquilo que colocamos nos nossos pratos e o impacto que isso tem sobre a nossa saúde, o ambiente e a vida de biliões de animais.

 

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